
Quando surgiu a prática de mergulho no Brasil?
O mergulho no Brasil tem raízes surpreendentemente antigas, misturando cultura indígena, expedições coloniais e um desenvolvimento técnico que acompanhou os avanços mundiais da atividade subaquática.
Neste guia, você vai entender quando surgiu a prática de mergulho no Brasil, quais foram os marcos mais importantes da sua evolução e como essa atividade passou de subsistência à recreação e ao mergulho científico e militar.
As Origens Indígenas: Mergulho Livre Primitivo
Os primeiros registros datam das tribos Taravambesus, povos indígenas do litoral sul brasileiro, que praticavam mergulho livre com arpões de madeira para caça de peixes.
Habituados aos 8 mil km de costa, dominavam técnicas de apneia em águas rasas, estabelecendo as bases da atividade subaquática no território muito antes da chegada dos europeus. Essa prática perdurou entre comunidades pesqueiras, influenciando gerações até o contato colonial introduzir equipamentos externos.

Século XVII: Primeiro Traje de Mergulho Registrado
Pouco após 1500, o holandês aventureiro “Faca” utiliza o primeiro traje de mergulho documentado no Brasil, na Baía de Guanabara (Rio de Janeiro). Composto por couro impermeabilizado com sebo e piche, mais um capuz inflável para respiração, tentava recuperar canhões submersos por tempestade, visando recompensa de 10 mil coroas de ouro oferecidas por Salvador Corrêa de Sá.
Fracasso técnico, mas marco histórico, enquanto Guglielmo de Lorena testava sinos de mergulho na Europa, Brasil registrava primeira imersão com vestimenta. O artesão André Tower fabricava o equipamento localmente.
Início do Século XX: Mineração e “Paulistinha”
Na segunda década do século XX, o francês Luiz Charles Person funda em São Paulo a primeira fábrica de roupas de mergulho clássicas das Américas. Inicialmente para garimpo de ouro em rios, lança a “Paulistinha”, que é um capacete acoplado a encosto dorsal, ar fornecido por mangueira ligada a bomba manual de alta pressão patenteada como “Sopra-fogo”.
Sucesso imediato entre mineradores. Evolui para “Paulista”, traje marítimo pesado. A Empresa Person opera até hoje, diversificando para esportes náuticos.
Década de 1930-1950: Pesca Submarina Organizada
Em 1939, surge a pesca submarina esportiva no Rio de Janeiro, com equipamentos europeus trazidos por tripulação da Panair do Brasil. Veteranos do Iate Clube de Marimbás (irmãos Borges, Bruno Hermany, V. Velisch) pioneirizam nas Ilhas Cagarras, fundando a Associação Brasileira de Caça Subaquática (ABCS).

O Brasil sedia o 6º Campeonato Mundial, conquistando títulos. ABCS integra Confederação Brasileira de Esportes. Destaques a Hermany (6º lugar 1958, 1º individual 1960), Delmar Correa, Arduíno Colassanti, Américo Santarelli (recordes apneia, fábrica Cobra Sub).
Mergulho autônomo: escolas, certificações e evolução técnica
A grande virada no mergulho nacional aconteceu entre as décadas de 1950 e 1970, com a introdução do mergulho autônomo (com cilindros de ar). A Fundação Atlântida, a primeira fábrica sul-americana de equipamentos de respiração autônoma (SCUBA), em 1955, foi um divisor de águas. O empreendimento fabricava cilindros, válvulas e acessórios completos para a prática.
Nos anos 1970, surgiram cursos e certificações locais, como os promovidos pela escola Dallo Sub, considerada pioneira no ensino de mergulho autônomo no Brasil. A instituição formou instrutores, criou materiais didáticos próprios e ajudou a desvincular o mergulho autônomo da caça submarina, promovendo uma abordagem científica e recreativa.
A chegada das certificadoras internacionais e a democratização do mergulho
A partir da década de 1980, o Brasil passou a receber influência direta de grandes certificadoras internacionais, como a PADI e a NAUI. Com a padronização de cursos e o aumento da segurança, o mergulho recreacional se popularizou, tornando-se acessível a turistas e praticantes em geral.

A visita de Jacques Cousteau ao Brasil e sua imersão com botos-cor-de-rosa no Amazonas, exibida pela Rede Globo em 1984, teve forte impacto cultural e inspirou uma nova geração de mergulhadores e admiradores do fundo do mar.
O mergulho no Brasil hoje: recreativo, científico e militar
Atualmente, o mergulho no Brasil abrange várias frentes:
Recreacional
O mergulho recreativo é hoje o formato mais conhecido pelo público em geral. Praticado por turistas, fotógrafos subaquáticos e entusiastas da natureza, ele é responsável por movimentar o turismo em regiões como Fernando de Noronha, Bonito, Arraial do Cabo, Ilha Grande e Salvador.
Centros de mergulho nesses destinos oferecem cursos, batismos e saídas embarcadas com foco em experiências seguras e sustentáveis.
Científico
No campo acadêmico e ambiental, o mergulho é ferramenta essencial para biólogos marinhos, oceanógrafos, geólogos e arqueólogos. Ele viabiliza pesquisas sobre recifes de coral, biodiversidade marinha, formações rochosas submersas e vestígios arqueológicos como naufrágios e ruínas subaquáticas.
Diversas universidades e institutos brasileiros utilizam o mergulho científico como método direto de coleta de dados e monitoramento ambiental, sobretudo em áreas de conservação.
Militar
A vertente militar é altamente especializada e estratégica. Unidades como o GRUMEC (Grupamento de Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil) realizam operações de alto risco, incluindo missões submersas de infiltração, sabotagem e reconhecimento.
O treinamento é rigoroso, baseado em padrões internacionais de forças especiais, e inclui técnicas avançadas de sobrevivência, resgate e combate subaquático.
Com escolas espalhadas pelo país, centros de formação reconhecidos internacionalmente e uma indústria de equipamentos consolidada, o Brasil é hoje uma referência sul-americana em mergulho.
Perguntas Frequentes sobre o surgimento da prática de mergulho no Brasil?
O mergulho indígena pode ser considerado o início da prática no Brasil?
Sim. Embora não fosse uma prática recreativa ou esportiva, o mergulho livre realizado por povos indígenas é considerado a forma mais antiga de interação humana com o ambiente subaquático no território brasileiro.
Quais estados brasileiros foram mais importantes no início da prática de mergulho?
O Rio de Janeiro e São Paulo foram os centros mais ativos nas primeiras décadas.
Como o mergulho no Brasil foi influenciado por conflitos militares ou guerras?
Durante a Segunda Guerra Mundial e no período pós-guerra, houve interesse estratégico em treinamentos subaquáticos, especialmente por parte da Marinha.
O Brasil tem sítios arqueológicos subaquáticos importantes?
Sim. O litoral brasileiro abriga diversos naufrágios históricos que são objetos de estudo da arqueologia subaquática, especialmente no Nordeste.
